MENINOS DO RIO
O meu sobrinho Rui Oscar, de oito anos, chegou esta semana a casa com dois bilhetes para o filme "Cidade de Deus", que alegadamente lhe teriam sido oferecidos pela sua catequista. Como a senhora nunca tinha sido tão generosa com os irmãos, só encontrei duas explicações possíveis para a situação: ou o Ruizinho os tinha roubado; ou a catequista lembrou-se dele porque o filme era exibido por uma associação chamada Zero em Comportamento.
Quando o miúdo mostrou os bilhetes aos pais eles arranjaram imediatamente vários compromissos importantíssimos que os impediam de ir com ele, do tipo "organizar a dispensa por ordem alfabética". Nessa altura o miúdo parou de pintar graffittis na parede da sala e olhou para mim. Não percebi bem se o olhar era de súplica, ou simplesmente de ameaça, mas achei melhor oferecer-me para o acompanhar.
Os bilhetes eram para a sessão das 21.45h, o que nos deu tempo para parar num McDonalds e falar um pouco de cinema. Fiquei a saber que os seus filmes favoritos eram o "Evil Dead" ("por causa do sangue"); o "Predador" ("por causa do sangue"); e o "Toy Story" ("por causa do sangue"). Como eu fiquei um bocado baralhado com este último, ele explicou-me que tinha sido nesse filme que a sua irmã Ruth Sónia se tinha menstruado pela primeira vez.
O centro comercial onde se situa o Cine 222 estava a abarrotar de gente, o que me deixou um pouco surpreendido. Eu nunca tinha ouvido falar no filme, nem no realizador, mas uma rapariga simpática, com ar de estudante universitária, forneceu-me algumas pistas: "Cidade de Deus" é um filme brasileiro que tem tido sucesso um pouco por todo o lado; recebeu o Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro; o realizador, um tal Fernando Meirelles, vem da publicidade. Tenho a certeza de que ela teria continuado a contar-me coisas interessantes se o Rui Oscar não lhe tivesse dado um beliscão no traseiro.
Como estas sessões não têm lugares marcados eu e o meu sobrinho acabámos por ficar separados, o que não me pareceu nada mal. Ele ficou sentado ao lado da Bárbara Guimarães e do nosso ex-ministro da Cultura e eu fiquei sentado entre uma brasileira bonita e um estudante cabeludo da ETIC. Estava a tentar meter conversa (com a brasileira, claro) quando as luzes se fecharam e, depois de uma curta-metragem chamada "Palace - II", começou a projecção do filme.
Comecei logo a ter sérias dúvidas sobre a sanidade mental da catequista do Rui Oscar. Cada cena que passava mais parecia um novo capítulo de um manual de iniciação ao crime. A cabeça do miúdo parou subitamente de se mexer de um lado para o outro e eu, em pânico, percebi que ele estava a prestar atenção a tudo. Muita atenção...
A minha nova amiga brasileira ajudou-me a traduzir a gíria carregadíssima dos personagens. A acção de "Cidade de Deus" passa-se num bairro social nos arredores do Rio de Janeiro, atravessando as décadas de 60 e 70, até ao início dos anos 80, altura em que essa favela se tornou o local mais perigoso do Rio - quase tão perigoso como o IC19 em dia de chuva.
O nome dos protagonistas é todo um programa: Busca-pé, Mané Galinha, Cabeleira, Marreco e Alicate (o Trio Ternura), Filé com Fritas, Cenoura, Dadinho...aliás "Dadinho o c******, o meu nome é Zé Pequeno"... e Bené.
Resumindo a história em poucas palavras - Dadinho... aliás "Dadinho o c******, o meu nome é Zé Pequeno"... e Bené começam cedo uma vida de crime e acabam por se tornar os bandidos mais sanguinários do Rio de Janeiro. Mas como os jovens nunca estão satisfeitos, os dois resolvem tomar conta do tráfico de droga na Cidade de Deus, o que acaba numa guerra violenta contra o bando do Sandro Cenoura. Este conta com a ajuda de Mané Galinha, um pacato cidadão convertido em anjo vingador. Tudo isto é-nos narrado por Busca-pé, um jovem sossegado que sonha com ser fotógrafo e acaba por ter nessa guerra a sua grande oportunidade.
Adorei "Cidade de Deus". É um filme perfeito nas suas opções estéticas, na sua estrutura narrativa retorcida, até na sua violência estilizada. E quando eu digo violência, quero mesmo dizer VIOLÊNCIA. Há tanto sangue a correr neste filme que deve ter entrado directamente para o top das preferências do meu sobrinho.
Mas essa violência não é gratuita, da mesma maneira que não o era em "Goodfellas" ou "Casino", do meu amigo Martin Scorcese, ou no "Pulp Fiction" do meu camarada Tarantino. E a comparação com estes nomes também não é gratuita. Eu, que já trabalhei em vários filmes de ambos, posso afiançar que "Cidade de Deus" não fica atrás de nenhum deles.
O Fernando Meirelles tem um talento enorme ("um puta talento" - dizia a minha amiga quase íntima) e deu-lhe largas neste filme, usando desde os recursos mais tradicionais às soluções mais arrojadas. Vê-se bem que ele é um realizador de publicidade (sem qualquer sentido pejorativo, antes pelo contrário).
Aliás, quando saí do filme, comecei a imaginar os próximos anúncios de Fernando Meirelles. Por exemplo: uma dona de casa sai de casa com o marido; um carro dobra a esquina em alta velocidade, fazendo guinchar os pneus; três moleques penduram-se para fora do carro e disparam rajadas de uzi, acertando no homem; o sangue espirra e mancha a camisa branca da mulher - "E agora, como é que eu vou tirar estas nódoas difíceis?".
Ou então: a fachada de um hipermercado; as portas abrem-se e sai a multidão a correr, em pânico; um grupo de moleques surge, com armas e sacos de plástico cheios de compras. A assinatura - "Mais barato, só roubando".
Voltando ao filme: o aspecto mais impressionante de "Cidade de Deus" é que é baseado em histórias verídicas, quase todas elas protagonizadas por crianças, adolescentes e adultos muito jovens. Uma espécie de "Capitães da Areia" em esteróides. O guionista, Bráulio Mantovani, fez um trabalho brilhante para conseguir colar todas estas histórias - e são muitas - num relato homogéneo, riquíssimo de detalhes, onde as cenas violentas, por vezes chocantes, se sucedem (não, não estou a falar do noticiário da TVI). Todo o filme é um longo flashback narrado a partir da cena inicial. Os vários enredos cruzam-se e descruzam-se, personagens que são secundários nuns aparecem como centrais noutros, para depois desaparecerem e voltarem a aparecer mais tarde. É uma história quase tão complicada quanto a do sósia do Carlos Cruz, mas bem contada.
Não é só o guião que é exemplar. A banda sonora é um sonho. A montagem deveria ser de estudo obrigatório em todas as escolas de cinema. A fotografia é um portento. Até os dentes dos actores são perfeitos.
E por falar em actores - que espanto! Será que as televisões portuguesas tem de começar a fazer castings para as telenovelas no Bairro do Relógio, na Damaia e na Costa da Caparica? A Márcia (a minha nova namorada brasileira) explicou-me que o Fernando Meirelles montou uma escola numa favela, com a benção dos traficantes locais (conhecendo as equipas de cinema, aposto que o consumo aumentou muito durante esse período), para ensinar, seleccionar e ensaiar os actores jovens que entram no filme. O resultado valeu a pena: a taxa de assaltos nas praias do Rio diminuiu certamente durante alguns meses e o cinema ganhou uma galeria de momentos inesquecíveis.
Uma das grandes virtudes de "Cidade de Deus" é que, apesar da temática pesada, nunca se torna chato ou doutrinário. O filme está cheio de cenas de humor, com diálogos impagáveis e réplicas perfeitamente hilariantes. Na realidade, foi por causa duma dessas cenas que a noite não acabou bem entre mim e a Márcia. A certa altura um dos personagens diz, desapontado, a propósito da sua primeira relação sexual, "cara, eu acho que jornalista não sabe trepar...". Eu ri às gargalhadas e só quando vi o ar sério da Márcia é que percebi que não lhe tinha perguntado qual era a profissão dela.
No fim do filme o Rui Óscar perguntou-me se podia receber uma pistola de 9 mm verdadeira no Natal. Eu disse-lhe que sim, desde que se portasse bem até lá. Nestes últimos dias o miúdo tem andado um anjo, de tal forma que os pais até vieram falar comigo. Eu disse-lhes para agradecerem à catequista por ter oferecido os bilhetes. O pior é que quando chegar o Natal vou ter de me pôr a pau. Ou, como nós dizíamos lá em Holywood, "I'll have to put myself at a woodstick".
OS FILMES DO JOHN
As críticas de cinema de John Snows, ex-namorado das estrelas de Hollywood